Mulheres ainda ocupam o papel passivo de espectadoras

Dia desses, após ler uma publicação sobre política de drogas, a pesquisadora e professora do Instituto de Direito Público Soraia da Rosa Mendes percebeu que havia algo errado naquele texto. Se ela conseguia lembrar, em poucos segundos, de ao menos 5 mulheres incríveis que poderiam falar sobre o mesmo tema, por que dois homens assinavam o artigo? Ou melhor: por que, novamente, homens entravam em cena para falar sobre um tema igualmente tão caro às pesquisadoras mulheres?

Soraia tem razão em ficar incomodada. Em 2013, 55% dos bancos dos cursos de graduação presenciais eram ocupados pelo sexo feminino. Os bancos das faculdades estão inegavelmente mais ocupados por mulheres. Deles saem pesquisadoras, professoras e doutrinadoras, profissões impensáveis às mulheres talvez a cem anos atrás. Os tempos mudaram, mas a ausência de mulheres continua sentida.

Nas últimas semanas, um evento da ABRACRIM-Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas chamou a atenção pela falta de palestrantes mulheres em suas mesas e foi duramente criticado por grandes especialistas da área. No VII Encontro Brasileiro dos Advogados Criminalistas, os painéis sobre Direito Criminal foram divididos por uma maioria masculina – 20 professores – e apenas 3 professoras. Em contato por email, a coordenação do evento não respondeu as perguntas do Justificando.

Mulheres ainda são colocadas na posição de espectadoras

A professora de Direito Penal e Criminologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Luciana Boiteux, uma das mulheres que criticaram o evento, disse, em entrevista ao Justificando, que "o machismo está nessa escolha por homens para os painéis". Como explica a professora, as mulheres ainda estão presas a uma tradição machista, cujo papel "é de assistir os homens, ocupando o papel passivo de espectadoras".

Assim, as doutrinadoras ficam muitas vezes de fora do mercado editorial. Seja dentro ou fora das palestras, são ausentes ou quase inaudíveis as vozes das estudiosas, a não ser em eventos cuja temática seja exclusivamente sobre direitos das mulheres ou quando os temas das mesas são diretamente ligados aos temas considerados "femininos".

Soraia esclarece que não vê mal que existam esses temas exclusivamente conhecidos da tradição feminina – "afinal, foram conquistados depois de muita luta de mulheres que sequer tinham espaço", diz. O que incomoda mesmo é a "apropriação da fala e da luta" por homens. Como exemplo, cita a Lei Maria da Penha.

"Hoje, muitos homens falam sobre Lei Maria da Penha, porque para eles é interessante. Mas quem fala sobre aborto? Quando falam, é só para criticar. O problema é essa apropriação da fala, e da luta das mulheres, que têm muito mais propriedade para encabeçarem esses temas".

Espaço para divergência já é um avanço

Os espaços ainda estão sendo conquistados pelas mulheres. Nessa caminhada, cabe também aos homens a viabilização desses espaços – não só ao público feminino, mas ao público negro e LGBTT. Ainda há resistência, afirma Boiteux, já que "a maioria sequer aceita a crítica, e atribui essa atitude das mulheres de exigir paridade como um "radicalismo" ou uma ação "agressiva", já que é uma atitude que contraria o papel de submissas que nos é atribuído pelo patriarcado".

"Nós, mulheres, contudo, não mais aceitaremos esse papel passivo de meras espectadoras, estamos mobilizadas e queremos ser reconhecidas como dignas de fala, e não aceitaremos ser deixadas de fora. Convidamos todos os homens a fazerem uma autocrítica e a lutarem ao lado das mulheres (mas nunca em nosso nome) por uma sociedade menos machista. Retirar o manto da invisibilidade de eventos nos quais as mulheres são minoria pode ser um primeiro passo. Mas ainda há muito por fazer", finaliza Boiteux.

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